Ancoragem retórica e argumentativa em polêmicas públicas
DOI:
https://doi.org/10.14198/hexis.32108Palabras clave:
ancoragem, argumentação, discurso, dissenso, Modelo Dialogal da Argumentação, polêmica pública, pontos de vista, retóricaResumen
Este artigo discute o papel da ancoragem retórica e argumentativa em polêmicas públicas, a partir da perspectiva do Modelo Dialogal da Argumentação (MDA), com o objetivo de compreender como elementos linguísticos, semióticos, interacionais e retóricos — ainda que não configurados como argumentos formais, desdobráveis em premissas e conclusão — contribuem para orientar, reforçar e estabilizar pontos de vista em debates polarizados. Metodologicamente, parte-se da noção de ancoragem, entendida como o modo pelo qual dispositivos textuais e discursivos estimulam, reforçam, dão estabilidade, orientam e/ou delineiam uma tomada de posição, para analisar qualitativamente dois excertos de polêmicas públicas: um discurso parlamentar contrário à descriminalização do aborto, proferido em 2023, e uma interação do podcast Flow sobre a legitimidade de partidos nazistas no Brasil, realizada em 2022. Os resultados mostram que, em ambos os casos, as âncoras atuam como reforçadores de pontos de vista em conflito: no primeiro excerto, por meio de adjetivações e locuções (des)valorativas que constroem uma oposição entre valores positivos e negativos; no segundo, por meio de interrogações sucessivas e incisivas que buscam desestabilizar a oponente e fortalecer a posição dos demais debatedores. Conclui-se que a ancoragem discursiva, embora discreta e muitas vezes periférica, desempenha papel não negligenciável na construção de sentidos, no delineamento das posições e na dinâmica da polêmica pública, contribuindo para compreender a mecânica argumentativa e retórica dos discursos em contextos de deflagrado dissenso.
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