A hermenêutica do outro: Padre Antônio Vieira e a semeadura no Mundo Novo
DOI:
https://doi.org/10.14198/hexis.32529Palabras clave:
Antônio Vieira, colonização, Companhia de Jesus, conversão, indígenas, retóricaResumen
Este artigo, que pretende examinar a construção da imagem dos indígenas na obra de Antônio Vieira, toma por mote o famoso trecho do Sermão do Espírito Santo (1657), em que o jesuíta constrói uma engenhosa alegoria do catequista como escultor, lidando com diferentes materiais: o mármore e a murta. Assim, ao passo que os fiéis do Velho Mundo são representados como estátuas de mármore, os novos fiéis das terras brasileiras são comparados a estátuas de murta — fáceis de esculpir, pela docilidade com que se dobram os ramos, todavia exigindo atenção constante do jardineiro, pois em pouco tempo perdem a forma, tornando «à bruteza antiga e natural». Face à «confusão verde» constituída por tais estátuas, ou seja, face à proliferação monstruosa da diferença na nova terra, expressa numa Babel de línguas, a tarefa missionária de conversão do gentio pressupõe a tentativa de, deparando-se com a irredutibilidade da cultura do selvagem, tentar reduzi-la ao Mesmo da sua. Em síntese, através da análise de alguns sermões e fragmentos de cartas vieirianas, em que se evidencia a sua leitura da alteridade do indígena sub especie religionis, enfocarei a atuação do mesmo gesto de captura da dispersão e da diferença como pretensa unidade e unificação teológico-política, destacando o que o jesuíta considera a mais alta finalidade dos descobrimentos portugueses: a condução do gentio ao corpo místico da Igreja.
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